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4 de dez. de 2011

Moralidade: Cultural ou natural?

Não nasci ruminando o Imperativo categórico e é por isso que meus neurônios sempre entram em conflito quando paro pra pensar no que é ético, moral e imoral, o que devo e o que não devo fazer. Não coloco a mão no fogo porque sei que ele queima, tento não comer em excesso, pois sei que excessos fazem mal, nem sempre falo o que penso por ter crescido ouvindo minha mãe repetir o conceito de Aristóteles que o homem é um animal político, portanto, incapaz de sobreviver sem os outros “animais”.

Nascemos, crescemos e morremos. É o ciclo. Entre esses ciclos acontece o que chamamos de vida. Enfiam-nos milhões de conceitos e regras. Simples assim, aprendemos a ser gente por ter muita gente tentando ser gente.

A moralidade sempre será uma ferida com características próprias, e o pior, ela é crônica. Há alguém pra colocar o dedo, pra dizer como ela deve ser tratada e vista. O grande problema é que os vários conceitos não são suficientes para defini-la de forma clara.

O aprendizado se acumula dentro da cabeça como a poeira. Ouvimos as teorias de Kant, Platão e Aristóteles o tempo todo, e às vezes fica pesado, é difícil sair por aí como cópias ambulantes do homem ideal e transcendente.

Só sei o que é certo ou errado por ter várias bocas repetindo aos meus dois ouvidos sobre a forma que devo agir, tratar as pessoas, enfim, como devo viver.

Seria simples se a moral funcionasse como a maça funcionou pra Eva. Uma mordida para o entendimento, o que nem sempre é bom.

Outro dia ouvi uma conversa na qual diziam que a ignorância traz felicidade. Será? De certo modo não me cobrarei o que desconheço. Olhando por esse ângulo notei a validade dessa colocação.

A moral como algo natural/inata me causa grande estranhamento. Uma criança aprende com a punição, com os nãos, com a dor. Ela não nasce com os gostos e com as experiências.

A verdade é que vão nos enfiando a vida e seus conceitos boca à dentro, ninguém nasce pessoa. Os nossos conceitos são paridos quando todo o aglomerado de células pode ser chamado de homem e aí só nos restará organizar os gostos e as informações olhando-as do ângulo mais confortável possível.

18 de nov. de 2011

O palhaço, de Selton Mello


Uma lenda antiga prega que o palhaço, quando não está em cena, é um sujeito triste. O personagem Benjamim, do filme O palhaço, interpretado por Selton Mello (que também dirige a produção) vivencia um drama diferente: ele suspeita que perdeu a graça em seus números. Sinal dos tempos, do avanço tecnológico e das várias formas de entretenimento do mundo virtual? Os dias de picadeiro estariam contados?

Não necessariamente é esta a questão posta em O palhaço, ainda que o filme nos conduza a fazer esta reflexão diametralmente. O grande foco do filme é a crise de identidade do palhaço Benjamim. Dilema este que funciona como camuflagem de um conflito psicológico maior, certamente vivenciado por todos nós em algum momento da vida: a falta de rumo. O que eu quero ser? Qual profissão seguir? É possível conciliar talento e autorrealização? A dúvida somente é dirimida quando nos arriscamos, quando partimos pelo mundo tateando o desconhecido, mesmo que não dê em nada. Muitos vão e se descobrem. Outros voltam para o ninho.

O jovem Benjamim é vacilante, ingênuo e sonhador. Titubeia entre continuar a vida imutável de circo ou se lançar para a experiência do mundo. Seu objeto de desejo é um simples ventilador para refrescá-lo no camarim. O seu oposto é o próprio pai, o experiente palhaço Valdemar (Paulo José), com quem contracena nos espetáculos. O destino de Valdemar já está traçado: será eternamente o palhaço Puro Sangue, como é conhecido, de um circo quase falido. Ele é a figura do conformismo.

O filme de Selton Mello retrata a vida de uma trupe que rasga o Brasil fazendo espetáculos circenses em cidadezinhas interioranas. O diretor usa o humor singelo para mascarar os dramas pessoais de cada personagem, quais sejam, o determinismo de suas vidas e a tristeza com a rotina desprovida de perspectivas. O palhaço pode ser dividido em dois atos: os percalços ocorridos nas viagens da trupe; e a fuga de Benjamim em busca de uma vida diferente.

A primeira parte, mais irreverente, retrata as viagens do grupo pelas estradas do interior. A quebra de um caminhão do circo conduz os atores a passar por situações inusitadas. Eles saem em busca de socorro e acabam encontrando uma exótica dupla de mecânicos, irmãos, primorosamente interpretada por Tonico Pereira. Aliás, as participações especiais são um espetáculo à parte. Moacyr Franco também não fica atrás ao interpretar um estranho delegado, mais preocupado com a saúde do seu gato do que com a própria mulher.

A irreverência do grupo é também sinônimo de esperteza. Em várias situações o grupo é obrigado a apelar para o suborno para se safar de algum aperto. Outra artimanha utilizada pela trupe é massagear o ego dos prefeitos das cidades pelas quais o circo passa, a fim de obter aplauso dos espectadores e, por que não?, algum "benefício" - nem que seja um simples jantar.

A segunda parte do filme narra a partida de Benjamim, como o Ulisses da Odisseia, para realizar seus sonhos: trabalhar, conquistar uma garota, providenciar a emissão de documento de identidade, e... comprar o tal ventilador. Nesse momento, o filme "fecha o foco" no personagem Benjamim e nas suas cabeçadas pelo mundo, revelando suas fragilidades, emoções e decepções.

A Estética e as influências

Vários detalhes técnicos utilizados por Selton Mello contribuem para a plasticidade irreverente de O palhaço - o que revela a habilidade do diretor (com o diretor de fotografia, claro) em ilustrar as cenas. Selton Mello carrega na tinta dos seus personagens, dando-os vida própria. Os atores mais parecem uma grande colagem; são mais coloridos que o cenário no qual estão inseridos, dando um tom fantasioso ao filme.

As imagens feitas do interior de uma Veraneio, quando em movimento, remetem ao velho artifício dos estúdios americanos, quando não existia a tecnologia dos efeitos especiais: o carro (num tom de cor mais forte) balança, enquanto a paisagem (descorada) corre ao fundo, como se fosse um rolo de imagens contínuo.

Nas filmagens, Selton Mello faz os movimentos de câmera partirem do universal para o particular, focalizando ao fim o perfil dos personagens, tentando captar a emoção em cada semblante. O espectador atento não pode deixar de reparar o belo travelling realizado na última cena do filme, acompanhando os passos de uma garotinha.

Não há como, no meio cinematográfico, diante dos milhares de filmes produzidos ao logo dos anos, deixar de apontar (ou especular sobre) algumas influências em O palhaço. O trajeto do grupo na Veraneio, em busca de socorro para o caminhão quebrado, é filmado num campo aberto, com a câmera fixa. O carro atravessa o plano da tela, de um lado para o outro, por várias vezes, lembrando as seqüências de Uma vida iluminada(2003), de Liev Schreiber. A garotinha loira, acenando no vidro traseiro do carro, inevitavelmente nos leva à Giulietta Masina, na cena de despedida em A estrada da vida (Fellini, 1954).

O palhaço remete a uma série de filmes. Difícil não lembrar de Bye Bye Brazil (Cacá Diegues, 1979) - também uma trupe que percorre o Brasil apresentando um espetáculo teatral. O filme de Selton Mello também é herdeiro de Shazan, Xerife & Cia, uma série antiga, já considerada cult, exibida no início dos anos 70 e protagonizada também por Paulo José. Há também ecos do cinema recente em O palhaço. As situações inusitadas (principalmente nas cenas com Tonico Pereira e Moacyr Franco) remetem a O cheiro do ralo (Heitor Dhalia, 2007).

O ponto fraco do filme de Selton Mello é a velocidade alucinante dos diálogos em alguns esquetes - principalmente nos "bate-bolas" entre Benjamim e Valdemar. Os diálogos são tão rápidos que se torna difícil acompanhá-los. O cinema brasileiro infelizmente assumiu, em muitos filmes, a influência do Guel Arraes de O auto da compadecida(2000). Os diálogos ágeis funcionaram muito naquele formato, mas vêm sendo repetidos exaustivamente em muitas produções brasileiras. É a mesma agilidade largamente utilizada como artifício de humor nos programas de tevê, que poderia muito bem ser abandonada no cinema.

O Diretor

Selton Mello fez dois filmes, diametralmente opostos em conteúdo, temática e estilo. Fazendo uma analogia barata, pode-se afirmar que ele fez o "côncavo" e o "convexo". Poderíamos dizer que O palhaço é o seu filme "convexo", que parte do interior (o circo e sua trupe) para o mundo. Seus personagens querem ser vistos, dialogam com o meio externo de forma irreverente, apesar de seus dilemas e da miséria material da vida circense. Já o primeiro filme do diretor, Feliz Natal (2008), é o filme "côncavo", fechado em si, cujo tempo narrativo é curto: a história se passa praticamente dentro de uma família, numa noite de natal. Feliz natal retira a máscara familiar, revelando conflitos há anos adormecidos em seus membros. Escancara a inveja e a melancolia de uma família com muitas contas a acertar. Tudo o que a polidez disfarça é desvendado ali.

Nota-se que Selton Mello, além de competente ator, é um observador atento do cinema - matéria-prima para uma carreira longeva de diretor. O palhaço e Feliz natal revelam habilidades de quem acompanha - e aprende com - bons cineastas. Parece que Selton absorveu um pouco da experiência dos diretores com os quais trabalhou como ator. Seus personagens de O cheiro do ralo e Auto da compadecida influenciaram a direção de O palhaço. Já o Selton Mello de Lavoura arcaica (Luiz Fernando Carvalho, 2001), talvez sua melhor atuação, influenciou o diretor de Feliz natal.

O palhaço é certamente uma boa novidade para o cinema brasileiro, principalmente por não abordar temas recorrentes com os quais já nos acostumamos, como violência, pobreza, favela, carnaval, sertão; e as comédias televisivas transpostas para o cinema. Resgatar o circo, apresentar essa importante arte à nova geração (a "geração gadgets") já é algo a se comemorar. O palhaço é um filme universal pela sua singeleza. Talvez ele consiga um difícil feito: aliar qualidade e popularidade.

por Wellington Machado

21 de jun. de 2011

O Mito da Abelha Rainha: As mulheres são mesmo chefes ruins?


Preconceito às avessas

Chefes do sexo feminino têm uma reputação de não serem muito agradáveis.

Algumas apresentam o que é chamado de comportamento de abelha rainha, distanciando-se das outras mulheres e se recusando a ajudar outras mulheres à medida que sobem na hierarquia.

Agora, um novo estudo, que será publicado na próxima edição da revistaPsychological Science, concluiu que esse comportamento de fato existe.

Contudo, segundo as cientistas, é errado culpar a mulher por este comportamento: a verdadeira culpa caberia ao ambiente machista das empresas.

Sexismo

Belle Derks e suas colegas da Universidade de Leiden, na Holanda, fizeram uma série de pesquisas sobre como as pessoas respondem ao sexismo.

A partir de suas próprias observações de mulheres no local de trabalho, elas acreditam que as mulheres são frequentemente avaliadas por um padrão diferente daquele dos homens: comportamentos que seriam vistos de forma positiva nos homens, como a competitividade, são vistos negativamente quando as mulheres os adotam.

As pesquisadoras queriam verificar se o comportamento de abelha rainha - negar que a discriminação de gênero seja um problema, por exemplo - pode ser uma resposta às dificuldades de um ambiente dominado pelos homens.

Identidade de gênero

Elas aplicaram um questionário para 63 profissionais seniores nos departamentos de polícia em três cidades holandesas.

Uma das primeiras perguntas versava sobre a importância de sua identidade de gênero no trabalho. Por exemplo, foi-lhes perguntado o quanto elas se identificavam com outras mulheres na força policial.

Metade das participantes foi orientada a escrever sobre um exemplo de uma situação em que elas entendiam que ser mulher era prejudicial para elas no trabalho, elas eram discriminadas, ou ouviram outras pessoas falando negativamente sobre as mulheres.

A outra metade foi orientada a escrever sobre uma situação em que seu sexo não representou problema e que elas foram avaliadas por suas habilidades pessoais.

Então as mulheres foram questionados sobre seu estilo de liderança, quão diferentes elas se sentiam de outras mulheres, e se sentiam que o preconceito de gênero era um problema no seu trabalho.

Comportamento de abelha rainha

As respostas dependeram da força da identidade de gênero de cada uma no trabalho, ou seja, da resposta àquela primeira pergunta.

Aquelas que começaram dizendo que se identificavam pouco com outras mulheres no trabalho responderam como uma autêntica abelha rainha - que possuíam um estilo masculino de liderança, que eram muito diferentes das outras mulheres e que o preconceito de gênero não era um problema.

Aquelas que se identificaram fortemente com seu gênero no trabalho tiveram a resposta oposta - que se preocupavam com o preconceito de gênero e que se sentiam motivadas a ajudar outras mulheres em suas carreiras.

Mulheres no topo

O fato de que apenas algumas mulheres adotam o comportamento de abelha rainha, e somente depois de terem sido induzidas a pensar sobre o preconceito de gênero, sugere que, para as organizações que querem mais mulheres no topo, simplesmente colocar as mulheres em posições mais altas e esperar que elas sirvam como mentoras de carreira para outras mulheres não vai funcionar.

"Se você simplesmente colocar mulheres em posições mais altas sem fazer nada sobre o preconceito de gênero na organização, estas mulheres serão forçadas a se distanciar do seu grupo," afirma Derks.

Elas poderão negar a existência do preconceito de gênero ou evitar ajudar as mulheres abaixo delas na hierarquia.

As pesquisadores concluem ponderando o que seria de se esperar de uma chefe que precisa analisar as oportunidades para todo o grupo: "Algumas mulheres vão escolher outras mulheres. Mas por que elas deveriam escolher dentre seu próprio grupo? Os homens não precisam fazer isso," diz Derks.


Disponível em:

3 de abr. de 2011

Foco no Oriente Médio


Revolta árabe tem tudo para levar assuntos da região para o vestibular


Tunísia, Egito, Líbia, Iêmen e Bahrein. A série de protestos contra os governos desses países,que vem sendo chamada de Revolta Árabe, tem tudo para aparecer nos próximos vestibulares. O consenso entre professores é que os acontecimentos recentes têm bastante chance de levar para as provas das principais universidades temas de História e Geografia relacionados ao Oriente Médio e ao norte da África.



Aventuras na História. Ed.93-Abril, 2011.

28 de mar. de 2011

O direito à verdade

A discussão sobre a pertinência da instauração, neste momento, da Comissão da Verdade se dá sob equivocado foco. A preocupação maior deve ser, ou pelo menos deveria ser, a efetiva garantia de informação aos parentes das vítimas sobre o paradeiro de seus queridos entes, muitos dos quais sumariamente executados pela ditadura militar que dirigiu o Brasil entre 1964 e 1985.

Por que a necessidade de informar a sociedade sobre o destino dos mortos pela ditadura militar está sendo encarada sob a ótica dos acusados e não sob a ótica das vítimas? Deve-se esclarecer de uma vez por todas que não se trata, como querem fazer crer alguns, de mero revanchismo. Não! O que se espera é a obediência do Estado brasileiro às garantias fundamentais, consagradas na Magna Carta, dos cidadãos que até hoje sofrem com a falta de informação sobre o paradeiro de seus parentes. A abertura dos arquivos da ditadura militar é uma questão de respeito aos direitos humanos.

A Constituição federal de 1988 estabelece como fundamento do estado democrático de direito o respeito à dignidade da pessoa humana (inciso III, do artigo 1º). Dignidade é, por exemplo, saber o que aconteceu com um pai que sumiu nesse período. De modo que é dever do Estado, e não desse ou daquele governo, elucidar as obscuridades ocorridas durante a ditadura militar. É preciso que se dê transparência sobre os sinistros acontecimentos desse período, quando milhares de brasileiros e brasileiras sofreram agressões físicas, foram sequestrados, estuprados e torturados, muitas vezes até a morte, por agentes do "Estado". A ocultação dessas informações representa manifesta violação aos direitos humanos da própria sociedade brasileira, o que é inaceitável.

Não obstante o Estado brasileiro ser signatário de diversos tratados internacionais sobre direitos humanos, como, por exemplo, o Pacto de São José da Costa Rica (1969), recepcionados pela atual Constituição federal (artigos 1º, III, 4º , II e 5º e seus parágrafos), já transcorreram 26 anos desde a queda do regime militar ditatorial sem que seus arquivos fossem abertos. Por tais fatos, em novembro passado, o Estado brasileiro foi condenado no julgamento do caso sobre a Guerrilha do Araguaia, pela Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA).

A quase totalidade da sociedade brasileira continua desconhecendo uma parte da história nacional que jamais deveria ser esquecida. E, para que não esqueçamos desse período sombrio, não se pode compactuar com a ocultação da verdade. O esclarecimento das mortes dos militantes de esquerda e demais vítimas do regime de exceção, principal objetivo da Comissão da Verdade, servirá como verdadeira conciliação da sociedade brasileira, em especial para os militares, cuja imagem continua manchada desde o fim da ditadura.
Logo, os militares deveriam ser grandes interessados na abertura dos arquivos da ditadura, a fim de que se desfaça qualquer vínculo entre aqueles que cometeram atrocidades em nome da "democracia" e a atual geração de militares.

É inconcebível a inexpressiva adesão da sociedade civil e da mídia em geral ao principal objetivo da Comissão da Verdade. Até quando mães e pais serão privados do direito fundamental de sepultar os restos mortais de seus filhos e filhas? Até quando os filhos e filhas desconhecerão o destino de seus pais?

Opor-se à Comissão da Verdade é opor-se à Constituição e, consequentemente, aos valores fundamentais escolhidos pela própria sociedade.

Texto de Mário Conforti

Pessach: Celebrando a Passagem


Reflexões sobre a doutrina da Passagem

a situação atual e os elementos constituintes

da festividade de Páscoa.

Por diversos motivos, a festa da Semana (Santa?) não anda lá com essa bola toda. Originalmente, a festa ocupava um lugar de destaque no calendário e era ela que marcava a ciclagem dos anos (não o Natal!). Assim era nos dias de Jesus e assim ainda permanece no calendário religioso judaico. A festa acontecia sempre no mês de Nisã (o primeiro dos meses por ordem divina e por ser nele que acontecia a festa da Páscoa). Mas com a introdução do calendário gregoriano em 1582, esse lugar ficou para o Natal, uma configuração muito interessante para uma festividade religiosa. Como é sabido, na ciclagem dos tempos (virada do ano) um mecanismo psicológico de reflexão e avaliação abate as pessoas e a sociedade de forma geral que tendem então a analisar o tempo e os acontecimentos que se passaram e a rever atitudes mais apropriadas para os anos que se seguem. Esse importante fator psicológico não existe mais nos dias atuais de Páscoa.


Outro fator, muito forte eu diria, também detonou com as festividades pascais. Por não movimentar diversos setores da economia como o Natal e ter se restringido historicamente às linhas de produção do chocolate, a Páscoa não mexe com vultosas somas de dinheiro e se tornou financeiramente menos interessante na sociedade capitalista. Aliás, mesmo esse fator ‘Ovos de chocolate’ teve que ser acrescido e ter seu significado construído posteriormente, porque a Páscoa tal como era na sua origem era uma festa ainda menos interessante para os ávidos por lucro.


A Páscoa (hebraico, Pessach) é uma festa explicitamente prevista e regulamentada nas Escrituras, muito diferente do Natal (inventado posteriormente e que nunca foi celebrado pelas comunidades cristãs primitivas). Economicamente menos interessante, cronologicamente prejudicada na era moderna, a Pessach é, no entanto, de muito maior relevância sob o prisma teológico. Seus significados e efeitos espirituais são muito maiores e mais profundos. Se o Natal é o início, a Pessach é a consumação, a conquista, o grito final de vitória do processo de libertação.


Quando a primeira Pessach foi celebrada, muito provavelmente nenhum dos que participaram (nem mesmo o próprio Moisés) entenderam o significado complexo do seu rito. Isolado do processo histórico de revelação e do auxílio de outras porções das Escrituras (que ainda não existiam então) o rito pascal soa completamente absurdo, totalmente desconexo e sem sentido. Algo como um misto de culinária grotesca com um processo cerimonial sem nenhum requinte e elaboração, nada muito digno de uma festa sobre a qual diziam ser da maior importância. Muito menos aceitável devia ser para a mente dos escravos hebreus de então a afirmação de que aquele ritual bizarro fora concebido e prescrito pelo próprio Deus, a Mente das mentes, Aquele cuja sabedoria e conhecimento são insondáveis. O que Ele queria mesmo dizer com tudo aquilo? Que espécie de dica ou pistas de revelação aquelas ordens aparentemente tão arbitrárias significavam? Precisava mesmo de todos aqueles detalhes ritualísticos?


As ‘bizarras’ ordens do SENHOR eram claras. A refeição consistia no prato principal do assado de um macho saudável (o texto diz literalmente ‘sem defeito’) do rebanho caprino ou ovino, acompanhada de pães asmos (sem fermento) e de ervas amargas. Uma combinação não muito apetitosa mesmo. O sangue do animal imolado deveria ser passado nas vergas e umbrais das portas (decoração de mau gosto não?) e a refeição deveria ser comida às pressas. Tem base? Nossas festas importantes acontecem com alimentos selecionados e seguem por longas horas de entretenimento e prazer, afinal elas são festas importantes. Mas a Pessach além de estranha deve ser comida às pressas mais parecendo um lanche beira de estrada do que uma celebração solene. O motivo? É a Pessach, diz Deus. Palavra hebraica que significa passagem. Na verdade, nossa tradução “Páscoa” não é muito indicada porque não traz o significado do vocábulo original. O correto seria Festa de Passagem, porque é isso que o SENHOR nos deu pra celebrar. Uma Passagem. “Comam rapidamente, bem calçados e vestidos para a viagem”- diz Deus. “Vocês estão prestes a sair daqui, acreditem. Eu estou preparando uma Passagem”. Uou! Super! Isso devia ser simplesmente demais para a mente daqueles pobres escravos, já pensou? Estavam ali há séculos e tudo o que conheciam era a chibata e o forno dos tijolos. Será que Moisés havia mesmo escutado a Deus ou estava louco? Eram pobres escravos há centenas de anos, como é que seriam homens livres logo ao amanhecer?


A ordem de se comer a refeição com pressa não significava literalmente uma quebra das recomendações dos dentistas quanto à mastigação. Tampouco a ordem para que estivessem calçados e vestidos para a viagem era para dar um ar esportivo à celebração. Deus estava falando de algo muito mais profundo. Algo sério, muito sério. A pressa é uma atitude de espírito. Uma lembrança viva de que somos peregrinos, que não pertencemos ao sistema, de que apesar de circunstancialmente estarmos nele e por mais absurdo que pareça, uma passagem (Pessach) está prestes a ser aberta. É uma grande festa, uma mais que super celebração. Mas não a celebramos com trajes de luxo, nem com roupas de festa. A Pessach é uma festa de pobres peregrinos, uma festa dos fracos e dos oprimidos, mas que descobriram uma Força indestrutível que nenhum sistema da terra (nem o egípcio, nem nenhum outro) poderá jamais superar!


Os pães sem fermento não eram má culinária de Deus tampouco. Sem ação das leveduras, a massa devia ficar sem aeração e ser mais pesada, é verdade; mas não é com leveza e requinte que Deus estava preocupado. O foco divino era a pedagogia e não a culinária. Como é sabido, as leveduras são fungos, seres que atuam sobre a matéria em decomposição, em podridão ou degradação. Simbolicamente, os fungos apontam para o pecado, para o mal e a transgressão que “apodrecem” o coração dos homens, a sociedade humana e o universo. Segundo Paulo, os asmos (pães sem fermento) simbolizam a sinceridade e a verdade que é característica daqueles que querem fazer parte da Passagem (Páscoa ou Pessach de Deus). As ervas amargas, por sua vez, não era uma forma de Deus torturar as criancinhas travessas dos hebreus (sempre que leio o texto, as palavras me evocam a imagem dos copos de boldo e alosna que me ofereciam na infância para as crises do trato gastrintestinal. Argh!) As ervas amargas simbolizam não o sabor da obediência e da justiça em si, que não são penosas mas sempre doces e prazerosas ao nosso coração. Mas podemos dizer que as ervas amargas simbolizam o sabor que a obediência e a justiça podem ter no mundo da corrupção e dos interesses egoístas, aonde a autonegação da vontade e a vida centrada na cruz podem significar o caminho mais longo e difícil ou o prejuízo momentâneo em diversas vezes. Se quisermos ter parte na Passagem (Pessach de Deus), é o que o SENHOR está nos ensinando, não podemos nos abster de um bocado de ervas amargas. O sangue nos umbrais das portas também não era decoração de mau gosto.


O sangue nas portas dos casebres dos escravos os protegeria da terrível visitação noturna que abateria sobre a terra do Egito. Depois de sucessivos julgamentos contra as divindades egípcias: Amon-Rá, Osíris e mesmo o Nilo (também uma divindade na concepção egípcia) – cada praga enviada tinha o propósito de questionar a existência ou supremacia de uma divindade egípcia - Deus guarda seu último golpe contra o Faraó, o deus-vivo (ou será menos morto?) do Antigo Egito. E não era pelo mérito próprio do auto-sacrifício ou autojustificação que os escravos hebreus seriam poupados e protegidos. As esperanças deles residiam no sacrifício de um terceiro inocente, que substitutivamente seria proteção e justificação para eles.


É o desenvolvimento da doutrina do sacrifício substitutivo que começara a ser desenvolvida nas Escrituras desde o relato de Abel. Ao invés de vir por autodeterminação e esforço individual (justiça própria) a justiça e proteção dos escravos eram imputadas, transferidas, com base nos méritos de um terceiro elemento inocente que levava a culpa que era da coletividade. A instrução quanto ao animal a ser imolado parece, no entanto, estar errada em alguns momentos do texto. Fala-se que cada família deve arranjar para si um animal (vários animais, portanto). Mas há lugares no texto onde está escrito que a comunidade (inteira) de Israel deveria sacrificar “o” animal (no singular). Tipos de erros infantis na colocação do singular e do plural no texto bíblico parecem sugerir num primeiro momento como se o escritor tivesse deslizado em algum instante da escrita ou que a corrente da inspiração divina tivesse sido temporariamente cortada por alguns instantes e que, por conseqüência, acabou por gerar essas aparentes “contradições” nos relatos. Mas reza a tradição cristã, que cada uma única palavra, um único tempo verbal das Escrituras foi muito bem previsto e calculado pelo Espírito Santo. “Erros” envolvendo o singular e o plural aparecem em diversas partes das Escrituras, pontos onde Deus subitamente troca, no meio de um discurso que vinha num sentido plural, a palavra para uma forma singular. Acontece na promessa a Abraão, em profecias de Oséias e nesse texto de Êxodo. O motivo dessa inversão não seria acidental e sim proposital (Pira?). Deliberadamente, Deus inverte as palavras em vários momentos para o singular porque eram antecipações de uma Pessoa única que viria e assumiria o cumprimento das cláusulas, das condições e das Promessas. Assim, a inversão do discurso para o singular teria sido meticulosamente calculada porque se tratava de uma antecipação de um sacrifício posterior, cabal, único e perfeito realizado por um tipo diferente de “Cordeiro” que se manifestaria quando algumas revelações divinas à humanidade estivessem maduras.


Esse “Cordeiro” cujo sangue os protege da morte é também o mesmo da refeição, cuja “carne”, ou seja, a Sua própria Pessoa seria o alimento que os fortaleceria durante toda a Pessach, a Passagem para a nova realidade. Sabemos muito bem quem é esse tal Cordeiro. Não foi apenas coincidência do destino que ele foi sacrificado justamente durante as festividades da Páscoa há dois mil anos atrás. Ele deveria mesmo morrer durante a Pessach, o Espírito do SENHOR sabia bem disso. Afinal, Ele mais do que qualquer ovino ou caprino gordo era o verdadeiro “Cordeiro da Passagem”. Durante aqueles dias agitados em Jerusalém, poucos compreenderam, no entanto, que o cordeiro da Pessach não estava à mesa entre os seus dentes, mas dependurado ali próximo, agonizante numa cruz. Aqueles que entenderam isso, “comeram”, isto é, aplicaram o corpo de Jesus, o Cordeiro que traz vida, às suas próprias vidas e se colocaram debaixo da justificação e proteção do Seu sangue.


Todavia, 4 mil anos depois da primeira Pessach e 2 mil anos depois do sacrifício que definitivamente abriu a Passagem, a inversão da doutrina assumiu configurações notáveis, não só para o mundo do ocidente como para Israel em si (como estado político moderno). Os descendentes daqueles primeiros escravos oprimidos abandonaram (eles e nós, eu diria) muito do que foi ensinado pelo Senhor. Não somente isso, mas talvez possamos dizer que, em certo sentido, eles saíram do lugar de oprimidos revolucionários pra assumirem o posto de cruéis dominadores tal como foram com eles os antigos egípcios. Talvez, os palestinos de hoje tenham mais daqueles antigos escravos do que aqueles que diretamente deles descendem atualmente.


Enfim, a Passagem (Pessach) é uma doutrina complexa e abrange a vida humana em muitos aspectos, mais do que a maioria imagina. Seria preciso muitas páginas pra discorrer com propriedade sobre ela e esse texto já está muitíssimo grande. Mas por tudo o que aqui foi dito, dá pra ter uma idéia de como a festa dos ovos adocicados não é digna, nem se parece em nada com a verdadeira Pessach, a festa original de Passagem. Afinal, mais do que uma celebração festiva, a Passagem deve ser uma realidade diária e definitiva. Ela afirma uma Passagem espiritual e a subjugação do pecado e de ordens espirituais do mal, é verdade. Mas a Pessach também não pode ser de todo espiritualizada. E isso é igualmente verdade. Isso porque a Pessach é a festa integral de libertação, que afirma a existência e influência do sobrenatural sem negar o natural. Uma verdadeira festa de Passagem precisa afirmar e promover a libertação política, econômica e social das pessoas. Afinal, não era disso que tratava a libertação dos escravos hebreus em relação à dominação tirana dos faraós egípcios? Eram reivindicações políticas e sociais reais, não eram hipotéticas. A integralidade da libertação e da Passagem, vai diretamente contra ao que muitos críticos materialistas afirmam. A verdadeira espiritualidade não concorre, nem nunca concorreu com a materialidade. Ela não é etérea, distante, inalcançável. Ela se manifesta libertando os escravos, aliviando os oprimidos, dando voz e expressão aos que delas foram negados bem como questionando e subvertendo os opressores e seus sistemas falidos, demolindo as estruturas que se levantam contra os interesses da verdade e do amor de Deus. Todavia, não é de se estranhar muitos dos tais críticos da fé. Afinal, o máximo que a maioria das pessoas conheceu de fé foi a exposição a uma imitação barata de fanatismo e acomodação que em nada encontra respaldo nas Escrituras e na Pessoa de Cristo.


A Páscoa é a festa da libertação (não é festa de ovos, nem de fertilidade, blá, blá, blá... doutrinas deturpadas e acrescidas posteriormente). Mas eu pergunto: que cristãos verdadeiramente celebram hoje a Passagem (Páscoa)? Será que verdadeiramente podemos dizer que celebramos e vivemos a Passagem (Páscoa)? Os templos cristãos, vulgarmente apelidados de igrejas, o que eles parecem? Parecem casas de libertação? Muito pelo contrário eu diria. Eles me parecem muito mais com Pitom e Ramsés, as cidades-celeiro que segundo Êxodo capítulo 1 foram erguidas às custas dos pobres escravos hebreus. As riquezas da América, eu pergunto, onde estão hoje? Não estão incrustadas nas paredes e adornos das catedrais européias? Isso foi por promoção da libertação Pascal ou por afirmação das mãos de ferro que esmagaram a vida de milhões? E o que dizer dos templos suntuosos que andam construindo a cada esquina das cidades atualmente? Esses cristãos estão mesmo promovendo a Pessach (Passagem)? Essas pessoas estão mesmo de “passagem” (Páscoa)? Ou será que suas atitudes não soam mais como de pessoas para quem a idéia de uma nova terra não parece nada interessante? Será que já não se acostumaram e aceitaram definitivamente o Egito? Com estas palavras, não tenho a intenção de ofender a ninguém nem a nenhum grupo. Respeito as expressões de fé de todos os cristãos e mesmo dos que nem cristãos são. Mas entendo que não podemos tapar o sol com a peneira e fatos devem ser expostos tal como de fato ocorreram. Meu melhor desejo não é o doce do chocolate para alguém nessa Páscoa. Mas caso você ganhe algum aproveite com moderação. Mas certifique-se que os ingredientes originais não te faltam: os asmos da sinceridade e da verdade, as ervas amargas da autonegação e da vida centrada na cruz, a carne que traz vida do Cordeiro que de uma vez por todas se entregou na Montanha da Caveira há dois mil anos atrás.


Pra esse ingrediente pascal (o Cordeiro) eu afirmo: aprecie sem moderação e que o Sangue da sua proteção more sempre sobre as Suas portas!


Uma Feliz Páscoa!

Uma Feliz Passagem!


O que é a Casa da Cultura Digital?

Afinal, o que é Casa da Cultura Digital?

Sempre me fazem essa pergunta. Sempre fico pensando o que responder.

Escrevi este texto, para compartilhar com quem queira realmente entender um pouco mais o que estamos construindo a partir do centro de São Paulo, o epicentro geográfico de nossa explosão…

*Oswald redivivo,
no fluxo atemporal da cultura
Contra o (neg)ócio
O (sacerd)ócio
A favor do ócio
E da política da afetividade

* Foi em Cibernética – canção escrita com a lava da erupção contracultural do fim da década de 1960 – que Gilberto Gil cantou: “que a luta pela acumulação de bens materiais/Já não será preciso continuar’. Talvez nesse verso se encontre a chave que abre a compreensão sobre o que é Casa da Cultura Digital: um espaço aberto em todos os aspectos (inclusive na liberdade de escolha sobre como se organizar), onde pessoas trabalham não para acumular, mas para fazer aquilo em que acreditam, da forma que acreditam, com quem acreditam, em torno das enormes possibilidades geradas pelas redes interconectadas e pelo livre pensar. Passado ano e meio da ocupação da Vila da Vitorino Carmilo, vejo a Casa (como a ela me refiro, embora saiba que CCD seja mais comum nos nossos corredores) como uma rede de pequenos empreendimentos e grandes pessoas, em que a tecnologia e o desejo de transformar a realidade se amalgamam produzindo momentos maravilhosos. Tudo o que ali se faz aponta para direção incerta e ainda assim a falta de certezas não inibe a vontade de caminhar. Pelo contrário, são justamente as pessoas adaptáveis ao ambiente líquido e mutante do mundo contemporâneo que acabam por se aproximar e conseguem permanecer na Casa.

A dimensão política da Casa da Cultura Digital é inegável, mas ali ela não chega sem o aporte fundamental da reflexão estética e do bom humor. É uma política vaporosa (política pública soft!), que produz fluxos, adaptando-se ao espaço (do fim do espaço) e ao tempo (do fim do tempo). Política generosa, baseada em programas e princípios, e não na mera especulação pelo poder, como ocorre de forma dominante em nossa sociedade. Talvez seja isso.

A Casa da Cultura Digital é uma rede. Um enxame: com sua ausência de controle centralizado imposto, suas subunidades autônomas e altamente conectadas e sua configuração de pares que exercem influencia uns nos outros. Sua “força e resistência não vêm da concentração, da pureza, unidade, mas da disseminação, da heterogeneidade e do cuidadoso trançado de ligações frágeis”(1).
(1) Trecho de Lúcia Santaella e Renata Lemos

Escrito por Rodrigo Savazoni

Retirado de : http://www.trezentos.blog.br/?p=5619

25 de dez. de 2010

WikiLeaks: O Poder da Informação


O povo não deve temer seu governo, mas o governo deve temer seu povo... [Filme V de Vingança]

WikiLeaks. Há pouco mais de quatro anos era uma palavra, melhor, um site que não fazia parte do cenário global, entretanto desde sua inserção nos domínios on-line (2006) gerou curiosidades, receios e controvérsias.

A WikiLeaks é uma organização fundada supostamente por um grupo de dissidentes chineses, jornalistas, matemáticos, tecnólogos de empresas start-up, intelectuais, ativistas e programadores. Um dos personagens desse grupo que ganhou destaque foi o australiano e ciberativista Julian Assange, que vazou cerca de 92 mil documentos secretos do exército dos Estados Unidos. Ele e outros colaboradores divulgam em sites na Internet um compêndio de informações e documentos confidenciais de governos e empresas.

Entre alguns documentos encontrados no site chama atenção documentos sobre possíveis crimes de guerra cometidos na Guerra do Afeganistão e na Guerra do Iraque pelo exército dos Estados Unidos, a cópia de um manual de instruções para tratamento de prisioneiros na prisão militar norte-americana de Guantánamo em Cuba, um relatório da Comissão Nacional Queniana de Direitos Humanos sobre a política de extermínio no Quênia e análises americanas sobre o Brasil além do vídeo Collateral Murder que mostrava civis iraquianos sendo mortos durante um ataque aéreo das forças militares dos Estados Unidos. Recentecemente uma curiosa notícia para o governo brasileiro afirma que o presidente francês Sarkozy usa sua esposa Carla Bruni para fortalecer a relação entre França e Brasil.

Divulgar sapiências tidas como confidenciais gera diversas discussões, uma das problemáticas que promove é trazer à tona a reflexão acerca da liberdade de informação e a subversão moral pelo “roubo” de tais informações, outra é o possível mal estar global diante das intimidades políticas expostas e o medo da queda de bastilhas.

Julian Assange estava listado pela Interpol como um dos homens mais procurados, mas foi sob a acusação de abuso sexual (recusa em usar camisinha na Suécia é tido como abuso sexual) que Assange foi preso no dia 7 de dezembro de 2010, sendo que uma das vítimas da violência é uma cubana com ligações com a CIA. Essa urgência em capturar Assange deixa bastante evidente a preocupação de diversos países em ter exposto seus bastidores.

Como troco pela prisão de Assange participantes do site Anononymous, às pressas organizaram a Operação Payback, em que realizaram ataques a sites que findaram relações e apoio ao site Wikileaks. Entre os sites atacados estão o do banco suíço PostFinance, o da MasterCard, Visa, Amazon, o de Sarah Paulin e o PayPal. Realmente a Internet esta mudando a maneira de se guerrear! Governos, jornalistas, o Vaticano, ativistas e intelectuais se manifestaram, e tudo isso sem sangue, sem bombas atômicas e com eficácia.

A revolução francesa trouxe como lema Igualdade, Liberdade e Fraternidade. Onde estão tais valores nas sociedades contemporâneas?

Julian Assange e Wikileaks trouxeram para o cenário mundial de notícias todo um emaranhando de sujeira de alguns governos e agora são perseguidos por divulgarem essas informações e até mesmo usuários e ativistas do Wikileaks tiveram suas contas no Twitter e Facebook excluidas.

Apesar de carecer de alguns valores morais e força de vontade, felizmente há bastante pessoas que batalham pela divulgação de informações e se utilizam de meios (nem sempre tidos como legais) para satisfatoriamente se defenderem. Dizem algumas línguas da mídia de uma possível indicação de Julian Assange ser indicado ao prêmio Nobel da Paz. Será que as grandes potências além de intimidarem Julian conseguirão também sufocar essa possível indicação?


Retirado do Paperblog (http://pt-br.paperblog.com/julian-assange-por-que-o-mundo-precisa-do-wikileaks-44163/) abaixo se encontra uma entrevista de Julian Assange a Chris Anderson.


Chris Anderson: Bem vindo, Julian. Foi divulgado que o WikiLeaks, seu bebê, divulgou... nos últimos anos divulgou mais documentos sigilosos do que o resto de toda a mídia do mundo junta. Isso pode ser verdade?

Julian Assange: É, isso pode ser verdade? É uma preocupação, não é? Que o resto da mídia do mundo esteja fazendo um trabalho tão ruim que um grupinho de ativistas consegue publicar mais informações desse tipo do que o resto da imprensa mundial junta.

CA: Como isso funciona? Como as pessoas divulgam os documentos? E como você garante a privacidade delas?

JA: Acontece que eles são, ao que sabemos, informantes clássicos. E temos uma variedade de maneiras para que eles possam fornecer informações para nós. Então usamos criptografia de última geração para fazer as coisas pularem pela internet, para esconder as trilhas, fazer que elas atravessem as jurisdições legais como a Suécia e a Bélgica para legalizar essas proteções legais. Recebemos informações por correio, o correio normal, codificado ou não, analisamos como uma organização de notícias normal, formatamos, o que as vezes é muito difícil de fazer, quando se fala sobre gigantescos bancos de dados de informações, divulgamos isso para o público e então nos defendemos contra os inevitáveis ataques políticos e legais.

CA: Então vocês se esforçam para garantir que os documentos são legítimos. Mas vocês realmente quase nunca sabem quem é a identidade da fonte.

JA: É isso, sim. É muito raro sabermos. E se descobrirmos em algum momento então nós destruímos essa informação o quanto antes (telefone toca) Que droga. (Risos)

CA: Acho que é a CIA perguntando qual é o código para ser um membro do TED. (Risos)

Vamos ver um exemplo, de fato. Isso é algo que foi vazado alguns anos atrás. Se nós pudermos mostrar esse documento... Essa é uma história no Quênia há alguns anos. Você pode nos contar o que você vazou e o que aconteceu?

JA: Esse é o Relatório Kroll. Era um relatório de inteligência secreto encomendado pelo governo do Quênia após a sua eleição em 2004. Antes de 2004, o Quênia era governado por Daniel arap Moi por uns 18 anos. Ele era um ditador moderado do Quênia e quando Kibaki chegou ao poder, através de uma coligação de forças que tentavam acabar com a corrupção no Quênia, eles pagaram esse relatório, gastaram mais ou menos 2 milhões de libras nisso e em um outro relatório. E então o governo o engavetou e usou isso para negociação política com Moi, que era o homem mais rico, e ainda é o homem mais rico, do Quênia.

Esse é o Santo Graal do jornalismo queniano. Então eu fui até lá em 2007, e consegui ter acesso a isso pouco antes da eleição, a eleição nacional em 28 de dezembro. Quando lançamos esse relatório, o fizemos 3 dias depois que o novo presidente, Kibaki, tinha decidido se unir com o homem que ele deveria tirar do poder, Daniel arap Moi. Esse relatório então se tornou um albatroz morto no pescoço do presidente Kibaki.

CA: E, quero dizer, para encurtar uma longa história, a notícia de que o relatório vazou chegou no Quênia não pela mídia oficial, mas indiretamente. E, na sua opinião, isso mudou os rumos da eleição.

JA: Sim. Isso foi a primeira página do Guardian e foi impresso em todos os países ao redor do Quênia na imprensa da Tanzânia e da África do Sul.

Ex-presidente do Quênia, Daniel Arap Moi [Juda Ngwenya/Reuters]

E aí, entrou no país vindo de fora. E isso, depois de alguns dias, fez com que a mídia do Quênia se sentisse livre para comentar a respeito. E passou por 20 noites direto na TV queniana, mudou as intenções de voto em 10 por cento, de acordo com um relatório de inteligência do Quênia, isso mudou o resultado da eleição.

CA: Puxa, então o seu vazamento mudou substancialmente o mundo?

JA: Sim. (Aplausos)

CA: Agora, nós vamos mostrar um pequeno trecho de um vídeo de um ataque aéreo a Bagdá. O video é mais longo. Mas aqui vai um pequeno trecho. Esse é, esse é um material intenso, devo avisá-los.

Radio:... de sacanagem, quando você os pegar apenas abra-os. Eu vejo seu elemento, uh, tem uns 4 Humvees, uh junto... Você está liberado. Certo. Atirando. Me avise quando você os pegar. Vamos atirar. Explodam eles. Vamos, fogo! (metralhadoras atirando) Continue atirando, continue atirando. (metralhadoras atirando) Continue atirando. Hotel ...Bushmaster 2-6, Bushmaster 2-6, temos que sair, comece a contar! Certo, nós confrontamos todos os oito indivíduos. Sim, nós vemos dois passaros [helicópteros], e ainda estamos atirando. Entendido. Eu peguei eles. 2-6, aqui é o 2-6, estamos móveis. Ops, Desculpe, O que está havendo? Droga, Kyle. Certo, hahahaha. Eu acertei eles.

CA: E qual foi o impacto disso?

JA: O impacto sobre as pessoas que trabalharam nisso foi severo. Acabamos mandando duas pessoas a Bagdá para pesquisar mais essa história. Esse é apenas o primeiro de três ataques que aconteceram naquela cena.

CA: Então, quer dizer, 11 pessoas morreram nesse ataque, certo, incluindo dois funcionários da Reuters?

JA: Isso. Dois funcionários da Reuters, duas crianças foram feridas. Houve algo entre 18 e 26 pessoas mortas no total.

CA: E divulgar isso causou revolta generalizada. Qual foi o elemento chave disso que causou a revolta, o que você acha?

JA: Eu não sei. Acho que as pessoas puderam ver a enorme disparidade de forças. Você vê homens andando nas ruas relaxados, e então um helicóptero Apache aparece em uma esquina disparando balas de canhão de 30 milímetros em todo mundo, procurando qualquer desculpa para fazer isso, e matando as pessoas que estão resgatando os feridos. E esses dois jornalistas envolvidos, que claramente não eram insurgentes, porque esse era o trabalho deles em tempo integral.

CA: Quero dizer, um analista de inteligência americano, Bradley Manning, foi preso. E supostamente ele confessou numa sala de chat que enviou esse video para você, junto com 280.000 telegramas sigilosos da embaixada americana. Quer dizer, será que ele mandou?

JA: Bem, nós negamos ter recebido esses telegramas. Ele foi indiciado, uns cinco dias atrás, por ter obtido 150.000 telegramas e divulgar 50. Agora, nós publicamos no início do ano um telegrama da embaixada americana em Reykjavik mas que não era necessariamente conectado a esses. Quero dizer, eu era um visitante conhecido daquela embaixada.

CA: Bem, se você recebeu milhares de telegramas diplomáticos da embaixada americana...

JA: Nós os teríamos liberado. (CA: Teriam?)

JA: Sim. (CA: Porque?)

JA: Bem, porque esse tipo de coisa revela o estado real de, digamos, como são governos árabes, os reais abusos de direitos humanos nesses governos. Se você olhar os telegramas não confidenciais, é o tipo de material que está lá.

CA: Então vamos falar um pouco mais sobre isso. Em geral, qual é a sua filosofia? Por que é correto encorajar o vazamento de informações secretas?

JA: Bem, há a questão sobre que tipo de informação é importante para o mundo, que tipo de informação pode gerar uma reforma. E há muita informação. Então as informações que organizações estão fazendo um esforço econômico para esconder, isso é um bom sinal de que quando essa informação estiver disponível, há uma esperança dela fazer algo bom. Porque as organizações que sabem das coisas, que conhecem tudo de dentro para fora, estão tendo trabalho para esconder. E isso é o que descobrimos com a prática. E essa é a história do jornalismo.

CA: Mas há riscos nisso, tanto para os individuos envolvidos ou até para a sociedade toda, em que vazar pode ter uma consequência não intencional?

JA: Não observamos isso com coisa alguma que tenhamos divulgado. Nós temos uma política de imunização a danos. Nós temos uma maneira de lidar com informações que tenham alguma coisa de pessoal, identificando pessoalmente a informação ali. Mas há segredos legítimos, você sabe, seus registros com seu médico, esse é um segredo legítimo. Mas nós lidamos com informantes que estão se apresentando realmente bem motivados.

CA: Então eles estão bem motivados. E o que você falaria, por exemplo, aos pais de alguém, cujo filho está servindo o exército americano no exterior, e ele diz, "Sabe de uma coisa, você publicou algo que alguém tinha um incentivo para liberar. E mostra um soldado americano rindo de pessoas morrendo. Isso dá a impressão, deu a impressão a milhões de pessoas no mundo todo de que os soldados americanos são desumanos. Na verdade, eles não são. Meu filho não é. Como você ousa insinuar isso?" O que você falaria para eles?

JA: É, nós recebemos um monte disso. Mas lembre-se, as pessoas em Bagdá, as pessoas no Iraque, as pessoas no Afeganistão, eles não precisam ver o vídeo; eles vêem isso todos os dias. Então isso não vai mudar a opinião deles. Não vai mudar a percepção deles. É isso que eles vêem todos os dias. Isso vai mudar a percepção e opinião daqueles que estão pagando por tudo isso. E essa é a nossa esperança.

CA: Então você achou uma maneira de jogar uma luz no que você vê como sendo esse tipo de segredos macabros das empresas e governos. A luz é boa. Mas você nota a ironia no fato de que para você jogar essa luz, você mesmo tem que, criar um segredo ao redor das suas fontes?

JA: Não. Quero dizer, nós não temos nenhum dissidente da WikiLeaks ainda. Nós não temos fontes que são dissidentes de outras fontes. Caso eles apareçam, isso seria uma situação difícil para nós. Mas presumimos que agindo dessa maneira as pessoas sentem-se moralmente obrigadas a continuar a nossa missão, a não ferrar com tudo.

CA: Eu estaria interessado, apenas pelo que ouvi até agora, queria saber a opinião da audiência do TED. Você sabe, deve haver alguns pontos de vista sobre o Wikileaks e sobre o Julian. Vocês sabem, o herói, o herói do povo, trazendo essa luz importante. O encrenqueiro perigoso. Quem tem a visão do herói? (quase todos levantam as mãos) E quem tem a visão do encrenqueiro perigoso? (ninguém ergue a mão)

JA: Ah, por favor. Deve ter algum.

CA: É um público moderado, Julian, um público moderado. Temos que tentar melhorar. Vamos dar a eles um outro exemplo. Aqui está uma coisa que vocês ainda não vazaram, mas eu acho que no TED poderiamos considerar que o fariam. É uma história intrigante que acabou de acontecer, certo? O que é?

JA: Então essa é uma amostra do que fazemos todos os dias. No final do ano passado - em novembro do ano passado - houve uma série de explosões de poços na Albânia como o poço que explodiu no Golfo do México, mas não tão grande.

E nós recebemos um relatório, um tipo de análise de engenharia do que havia acontecido, afirmando que, de fato, os seguranças de algum concorrente, várias empresas de petróleo competindo haviam, de fato, estacionado caminhonetes lá e as explodido. E parte do governo da Albânia estava envolvido, etc, etc.

E o relatório de engenharia não tinha nada sobre isso. Então foi um documento extremamente difícil para nós. Nós não conseguíamos verificar porque nós não sabíamos quem escreveu isso e sabíamos qual era o propósito disso. Então ficamos meio céticos que talvez fosse uma empresa de petróleo concorrente que estava trazendo isso a tona. Baseados nisso, nós publicamos e dissemos, "Olhem, nós estamos céticos a respeito disso. Nós não sabemos, mas o que podemos fazer? O material parece bom, parece certo, mas nós não conseguimos verificá-lo" E recebemos uma carta essa semana da empresa que o escreveu, querendo rastrear a fonte, (risos) dizendo, "Ei, nós queremos rastrear a fonte." E nós respondemos, "Conte-nos mais. A que documento, precisamente, você está se referindo? Você pode nos provar que tem alguma autoridade legal sobre esse documento? É realmente seu?" Então eles enviaram uma captura de tela com o autor na identificação do Microsoft Word. É. (Aplausos) Isso acontece bastante. Esse é um dos nossos métodos de identificar, ou verificar o que é aquele material, é tentar fazer com que esses caras escrevam cartas.

CA: Você teve informação de dentro da BP?

JA: Sim, nós temos muitas, mas quero dizer, no momento, nós estamos fazendo uma captação de recursos e esforços de engenharia. E a nossa taxa de publicação nos últimos meses foi reduzida enquanto nós reconstruímos os nossos sistemas para o interesse público fenomenal que nós temos. Isso é um problema Quero dizer, como qualquer tipo de organização nova em crescimento, nós estamos surpresos com o nosso crescimento. E isso significa que estamos recebendo uma quantidade enorme de revelações de informantes de calibre bem alto, mas nós não temos pessoal suficiente para processar e cuidar dessa informação.

CA: Então esse é o principal gargalo, jornalistas voluntários e/ou o financiamento de salários dos jornalistas?

JA: Sim, e pessoas confiáveis. Nós somos uma organização que dificilmente vai crescer rapidamente por causa do tipo de material que lidamos. Então temos que reestruturar para ter pessoas que vão lidar com questões da mais alta segurança nacional, e também casos de segurança mais baixa.

CA: Então ajude-nos a entender sobre você pessoalmente e como chegou a fazer isso. E acho que li que, quando era criança você estudou em 37 escolas diferentes. Será que isso está certo?

JA: Bem, meus pais trabalhavam no negócio de cinema e depois em um culto, então combinando os dois... (Risos)

CA: Um psicólogo poderia dizer que essa é a receita para criar a paranóia.

JA: O quê? O negócio de cinema? (Risos) (Aplausos)

CA: E você era também, quero dizer, você era um hacker desde jovem e teve problemas com as autoridades logo cedo.

JA: Bem, eu era um jornalista. Sabe como é, eu era um jornalista ativista bem jovem. E escrevi uma revista, que foi processada por isso quando eu era um adolescente. Então você tem que tomar cuidado com hacker. Quero dizer, há um método que pode ser feito para várias coisas. Infelizmente, naquele momento, era mais usado pela máfia Russa para roubar a conta do banco da sua avó. Então essa frase não é, tão legal quanto era antigamente.

CA: É, bem, eu realmente não acho que você estava roubando a conta de banco da avó de ninguém. Mas e sobre os seus valores? Você pode nos dar uma ideia do que eles são e talvez algum acontecimento na sua vida que ajudou a determinar esses valores?

JA: Não tenho certeza sobre o acontecimento. Mas os valores principais são: homens capazes e generosos não criam vítimas, eles cuidam das vítimas. E isso era algo do meu pai e de outros homens capazes e generosos que participaram da minha vida

CA: Homens capazes e generosos não criam vítimas. Eles cuidam delas?

JA: E, você sabe, eu sou uma pessoa combativa, então eu não sou muito bom com essa parte de cuidar. Mas de alguma forma, há outra maneira de cuidar das vítimas, que é vigiar os autores do crime. E isso é algo que está no meu caráter há bastante tempo.

CA: Então conte-nos, rapidamente nesse último minuto, a história: O que houve na Islândia? Você basicamente publicou algo lá, teve problemas com um banco, depois uma empresa de notícias de lá recebeu uma punição por ter publicado a história. Ao invés, eles divulgaram o seu lado da história. Isso fez você ser muito conhecido na Islândia. O que aconteceu depois?

JA: Esse é um grande caso. A Islândia passou por essa grande crise financeira. Foi o país mais afetado de todo o mundo. Seu setor financeiro correspondia a 10 vezes o PIB do resto da economia. Então, nós lançamos esse relatório em Julho do ano passado. E a TV nacional foi proibida de veicular cinco minutos antes de ir ao ar. Como se tivesse saído de um filme, a ordem foi colocada na mesa, e o apresentador falava "Isso nunca aconteceu antes. O que faremos?" Bem, vamos apenas mostrar o site então para preencher todo aquele tempo. E nós nos tornamos muito famosos na Islândia, fomos à Islândia e falamos sobre esse assunto. E havia um sentimento na comunidade que isso nunca deveria acontecer novamente. E como resultado disso, trabalhando com alguns políticos islandeses e alguns especialistas em direito internacional, nós montamos um tipo de pacote legal para a Islândia se tornar um paraíso para a imprensa livre, com as maiores proteções jornalísticas do mundo, com um novo prêmio Nobel para liberdade de expressão. A Islândia é um país nórdico então, como a Noruega, é capaz de mexer no sistema. E há apenas um mês, isso foi aprovado por unanimidade pelo parlamento islandês

CA: Uau. (Aplausos)

Última pergunta, Julian. Quando você pensa sobre o futuro, você acha que será mais como o "Big Brother" exercendo mais controle, com mais segredos ou nós observando o "Big Brother", ou tudo isso acontecerá, nos dois sentidos?

JA: Eu não estou certo de como será. Há pressões enormes para harmonizar a legislação da liberdade de expressão e a legislação da transparência ao redor do mundo, dentro da União Européia, entre a China e os EUA. Qual caminho vai tomar? É difícil ver. É por isso que hoje é um bom momento para se viver. Porque com apenas um pouco de esforço nós podemos mudar de um jeito ou de outro.

CA: Bem, parece que eu estou refletindo a opinião do público ao dizer, Julian, tenha cuidado e desejo todo poder para você.

JA: Obrigado, Chris

CA: Obrigado.


por Ana Cláudia Rocha

27 de nov. de 2010

Leitura: uma possibilidade de conquista

É possível alcançar sonhos, desejos, vontades e objetivos de inúmeras maneiras: pelo maniqueísmo do caminho do bem, do mal, ou por intermédio da escolha correta. Mas o que seria a escolha certa? Seria a boa? A mais difícil? A mais lucrativa? Ou aquela que leva ao propósito almejado sem agredir a integridade do outro?

Procurar pela escolha certa é fato praticamente unânime, contudo se revela diferente para cada um. Muitos são os caminhos os quais temos oportunidade de trilhar. O complicado é ter certeza se a opção escolhida foi a exata. Como prever? Que meios podem ajudar?


A leitura demonstra ser um dos mais magníficos meios de transmitir experiências e entender acontecimentos. A leitura que deve ser realizada não é somente aquela leitura de livros, textos on-line, jornais e revistas, mas, também, aquela leitura que se pode fazer de um ambiente, de uma conversa, um outdoor, uma situação e até mesmo uma pessoa.

Com auxílio da leitura e conhecimento se conseguem diplomas, empregos, dinheiro, respostas à questionamentos, mudanças na vida e, sobretudo, adquirimos maiores possibilidades de discernir a escolha certa das demais.

Por meio da leitura, hoje, sabemos das conseqüências do uso de uma bomba atômica, da promoção de um apartheid, da busca para formar uma suposta raça pura e superior e outras catástrofes históricas. Sabemos também sobre as maravilhosas e úteis descobertas científicas, como foi o passado, como é prazeroso entrar em um conto de fadas, viver uma Alice, ser um Peter Pan, o quão frustrante é ter as incertezas de um Bentinho, o quão belo é saber que seres como Madre Tereza, Martin Luther King e Gandhi não são utopias.

A leitura nos conta as falhas e acertos da história da humanidade, nos previne de erros já cometidos e nos dá segurança nas experiências que já deram certo. A leitura leva ao mundo dos sonhos, nos capacita a entender o presente e possibilita ter fé em um futuro melhor, relativamente previsível, porém, ainda desconhecido.

Por Ana Cláudia S. Rocha

(Des) Igualdade



Égalité, será mesmo que tu existes? É difícil responder tal questionamento. Diante a Constituição Brasileira somos sim, todos iguais perante a lei, Art. 5° - Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza - todavia, não se nota exata verossimilhança nessa afirmação.

(Leia Artigo 5º da Constituição Federal: http://www.culturabrasil.pro.br/artigo5.htm)

Grande parte das sociedades prega a igualdade dos povos, a liberdade religiosa, política e filosófica, além da inibição de atos de racismo ou de qualquer ação que maltrate a integridade do outro. Tal pregação é linda, perfeita, mas ainda utópica, em vista de que mal conseguimos aceitar completamente o perfil de nossos filhos, vizinhos, amigos de sala ou trabalho, quanto mais daqueles que nos são desconhecidos.

Além da problemática que cerca a concepção de igualdade há ainda outro ponto potencializador do enfrentamento: a intolerância.

A intolerância, em sua concepção histórica predominante relaciona-se com o dilema de convivência das crenças (religiosas, políticas), pois cada crença julga carregar consigo uma verdade e é bastante complicado resolver essa questão ideológica, uma vez que será inaceitável acreditar em duas crenças opostas. Em outra concepção intolerância faz referência a diversidade originada por disparidades físicas e sociais (celeuma da convivência harmoniosa com os ditos grupos minoritários – homossexuais, etnias, deficientes) que promove normalmente preconceito e discriminação devido, em geral, a uma questão de costume, autoridade e tradição.

Conviver com aquilo que nos é diferente nunca foi fácil, nem será, mas é possível. É uma questão de convivência. Cada ser abriga uma individualidade própria, com pensamentos, caráter, cultura, idéias, anseios e planos que são seus; tais características podem ser parecidas com os objetivos do outro, parecidas apenas, não idênticas.

A individualidade humana deve ser respeitada, do contrário, uma vasta onda de conflitos ocorre. Passamos por atrocidades e genocídios no passado – gregos, romanos, sumérios, nazismo, 1º e 2º Guerras Mundiais, hutus e tutsis – e continuamos a presenciá-las – Irã x Iraque x USA x Afeganistão e tantas outras.

O próprio Brasil, país de povo acolhedor e abençoado pelo Cristo Redentor é cenário de episódios de desigualdades, desrespeito e intolerância.

É preciso ressaltar que o Brasil mantém-se como um dos países com distribuição de renda mais desigual. Atualmente, o país, segundo o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) tem o terceiro pior índice de distribuição de renda. O acesso as universidades públicas é conquistado, geralmente, por estudantes advindos de boas escolas particulares, enquanto alunos de renda inferior estão fadados a estudarem nas escolas públicas, em que a grande maioria é de inferior qualidade educacional e raramente conquista o acesso ao ensino superior público.

O país canarinho é palco de situações em que uma estudante de direito, conhecedora das leis e da necessidade destas serem cumpridas, faz referências negativas aos nordestinos, gerando mal estar, polêmica e revolta. E outra universitária, via e-mail, discorre comentários maldosos que fazem referência a raça, fenótipo e modo de vestir de uma colega de classe.

Um episódio entristecedor ainda permanece na memória de algumas pessoas: o de quando um grupo de jovens de classe média alta, por brincadeira e intolerância, incendiou o índio pataxó Galdino de Jesus por julgarem que este era um mendigo.

Há uma urgente necessidade de mudar o cenário global no que tange a igualdade. Igualdade de tratamento, direitos, deveres, econômica e social.

Somos diferentes e semelhantes simultaneamente. Diferentes nas cores, raças, sexo, idade, popularidade, modo de ser e agir. Iguais no direito à liberdade, à igualdade, à escolha e ao respeito.

Cada ser enxerga o mundo com sua lente, aquilo que a princípio é estranho não deve ser combatido ou considerado anormal e feio, deve ser entendido e por mais que gere incômodo deve respeitado, tolerado.

A mitologia grega nos incitou a crer que para Narciso tudo aquilo que não refletia sua imagem era feio. Assim somos nós hoje: vaidosos, mesquinhos, perfeitos aos nossos olhos, e altamente críticos nos julgamentos alheios.

É necessário entender que somos únicos, todos nós. Igualmente merecemos respeito. Não importa se o outro é judeu, africano, nordestino, iraniano, norte-americano ou europeu. Somos todos gente, homens em busca de paz e felicidade. Não há princesa, plebeu, negro ou asiático, há seres humanos, iguais, em carne, ossos e direitos.

A igualdade se faz imprescindível desde muito, e agora mais do que nunca.

Por Ana Cláudia S. Rocha

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